ASN PR Atualização
Compartilhe

Cambira prato típico de Pontal do Paraná tem pedido de Indicação Geográfica depositado

Com mais de 300 anos de tradição caiçara, prato tem como base peixe salgado e defumado
Por Eduardo Pereira
ASN PR Atualização
Compartilhe

Uma nova Indicação Geográfica brasileira pode vir do litoral do Paraná. A cambira prato típico de Pontal do Paraná teve pedido de reconhecimento como Indicação de Procedência (IP) depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), devido à sua fama, tradição e ligação com a cultura local.

Segundo o caderno de especificações, publicado junto ao pedido protocolado em 14 de fevereiro no INPI, os primeiros registros da iguaria remontam a mais de 300 anos. O prato é preparado com peixe defumado, pirão (farinha de mandioca), banana e arroz com molho de tomate.

A consultora do Sebrae/PR Aline Geani Barbosa explica que o trabalho teve início em 2023, a partir de um diagnóstico realizado pela instituição. O estudo apontou o potencial da cambira e contou com o apoio da prefeitura do município.

“Esse pedido é uma oportunidade de demonstrar o valor histórico e o papel de quem empreende no litoral paranaense, impulsionando a economia local por meio da gastronomia, do turismo e da cultura. Uma possível IG ajuda a preservar a tradição e valorizar a cambira como patrimônio do litoral”, destacou.

A Associação dos Produtores de Cambira de Pontal do Paraná (Aprocampp) foi responsável pelo depósito do pedido, como lembra a presidente Conceição Vieira Ramos Constante.

“Durante esse processo, trabalhamos na consolidação de uma cultura dentro da comunidade, que favorece a todos. É uma forma de evidenciar o potencial que temos na cidade. Toda essa mobilização e a criação da associação nasceram da união de produtores locais, que compartilham o orgulho de manter viva a tradição da cambira, bem como do apoio das instituições. Acreditamos que uma futura conquista da IG fortalece a produção artesanal, valoriza nosso território e reconhece o prato como patrimônio gastronômico”, celebrou.

Conceição produzindo o prato típico ao lado de equipe do litoral. Foto: Prefeitura de Pontal do Paraná/Clovis Santos.

Moradora da comunidade de Guaraguaçu, Conceição relembra a infância, quando acompanhava o pai desde a pesca da tainha até o processo de defumação, armazenamento e consumo do peixe em família. Desde 2007, ela mantém um restaurante na cidade, onde atende turistas sob reserva.

“O peixe costumava ser o nosso sustento, e lembro de acompanhar meu pai desde a minha infância. Nós fazíamos todo esse processo e armazenávamos em balaios de cipó. Era o nosso alimento durante todo o ano e, acompanhado da banana doce, era preparado de diferentes maneiras: com feijão, moqueca, por exemplo. Ele expressa a cultura, os saberes e os sabores do nosso litoral. Atuamos juntos para fortalecer a produção artesanal, valorizar nosso território e buscar o reconhecimento da cambira como patrimônio gastronômico”, ressaltou Conceição.

Atualmente, a Aprocampp conta com 14 integrantes, sendo cinco restaurantes envolvidos na busca pela IG. O processo começou com um diagnóstico para mapear o potencial do prato e sensibilizar pescadores e empresários, além de apoiar a criação da associação e a elaboração do caderno de especificações técnicas.

Hoje, Pontal do Paraná possui o título de Capital Estadual da Cambira. Além disso, a prefeitura municipal está atuando durante todo o trabalho de busca pela IG, como destacou o prefeito de Pontal do Paraná, Rudisney Gimenes Filho.

“A cambira representa a essência da nossa cultura caiçara, o saber tradicional das famílias de pescadores, e a relação profunda que temos com o mar e a tainha. É com muito orgulho que hoje Pontal do Paraná carrega esse título, mas queremos ir além. Estamos trabalhando para obter o selo de IG, que vai garantir ainda mais visibilidade e valorização para esse produto único, ligado diretamente ao nosso território, ao nosso modo de vida e às nossas raízes. Esse selo vai significar geração de renda, valorização do turismo cultural e gastronômico, e mais oportunidade para quem vive da pesca artesanal e da produção tradicional”, comentou.

Pesca acontece na cidade litorânea do Paraná. Foto: Prefeitura de Pontal do Paraná/ Cesar Ramires.
Promoção da cultura e tradição caiçara

O prato é típico em diversas comunidades caiçaras do litoral paranaense. No entanto, Pontal do Paraná destacou-se ao valorizar essa tradição, elevando o prato a um novo patamar, com evidência para a riqueza da cultura caiçara. Os registros históricos mostram que a atividade foi, por muito tempo, a principal fonte de renda das comunidades de pescadores, assim como o pescado era a base da alimentação dos caiçaras.

A tradição demonstra que a pesca ocorre entre maio e julho. Depois, realiza-se o processo de limpeza e secagem do peixe, que é salgado e deixado pendurado em varais para defumação. A estrutura dos varais utilizava um cipó, conhecido por sua flor roxa, que deu origem ao nome cambira, associado ao peixe seco e defumado.

O prato típico utiliza peixe marinho como base em seu preparo. Foto: Prefeitura de Pontal do Paraná/Clovis Santos.

O consumo entre caiçaras também se popularizou, com o peixe sendo usado no preparo de ensopados e, em algumas ocasiões, o peixe defumado era aquecido e consumido no café da manhã, nesse processo de conservação que se difundiu no litoral. O método era utilizado pelos pescadores de todo o litoral, especialmente em Matinhos, Paranaguá e Pontal do Paraná.

Indicação Geográfica

Hoje, o Paraná conta com 24 Indicações Geográficas e é o estado brasileiro com o maior número. Apenas em 2026, já foram dois reconhecimentos conquistados, com o Café da Serra de Apucarana e as tortas de Carambeí.

Além disso, o ano de 2025 foi de recorde com a conquista de oito novas IG no Paraná, como as ostras do Cabaraquara; ponkan de Cerro Azul; broas de centeio de Curitiba; cracóvia de Prudentópolis; carne de onça de Curitiba; café de Mandaguari; urucum de Paranacity e queijo colonial do Sudoeste do Paraná.

Também possuem a IG o mel de Ortigueira; queijos coloniais de Witmarsum; cachaça e aguardente de Morretes; melado de Capanema; vinhos de Bituruna; mel do Oeste do Paraná; barreado do Litoral do Paraná; bala de banana de Antonina; erva-mate São Matheus – no Sul do Estado; camomila de Mandirituba; uvas finas de Marialva; cafés especiais do Norte Pioneiro; morango do Norte Pioneiro e a goiaba de Carlópolis.

Além delas, há ainda o mel de melato da bracatinga do Planalto Sul do Brasil, Indicação Geográfica concedida a Santa Catarina que envolve municípios do Paraná e do Rio Grande do Sul.

Junto da cambira, o Estado conta com oito produtos depositados e em análise no INPI. Os outros sete são: acerola de Pérola; caprinos e ovinos da Cantuquiriguaçu; ginseng de Querência do Norte; pão no bafo de Palmeira; cervejas artesanais de Guarapuava; mel de Capanema e couro de peixe de Pontal do Paraná.

  • Cambira
  • IG
  • IP
  • Litoral do Paraná
  • Pontal do Paraná
  • prato típico
  • Procedência