Para uma micro ou pequena empresa sustentabilidade pode parecer, à primeira vista, mais uma despesa na planilha. Mas controlar o consumo de energia, reaproveitar recursos, reduzir desperdícios e repensar processos também pode significar economia no caixa e novas oportunidades de mercado.
É essa relação entre responsabilidade socioambiental e resultado financeiro que o Sebrae/PR mostra na Feira do Empreendedor 2026. O evento aconteceu do dia 16 a 19 de setembro no Viasoft Experience, em Curitiba, com uma programação de conteúdos que também envolveu a temáticas ligadas a agenda ESG, economia circular e eficiência energética, além de ferramentas para ajudar o empreendedor a identificar onde pode melhorar.

Mais do que uma preocupação ambiental, a sustentabilidade pode se transformar em um diferencial para empresas que buscam novos clientes. Para o consultor do Sebrae/PR, Joelson Carvalho Jorge, um dos principais desafios é justamente mudar a percepção de que práticas sustentáveis representam apenas um custo para o pequeno negócio.
“É estratégico, é oportunidade, é a possibilidade de alcançar novos mercados. Não é custo. Esse tema deixou de ser algo romântico e passou a ser algo muito mais importante, estratégico e que abrange toda a empresa de uma forma organizada. É mudar essa visão para entender que pode ser um diferencial para você crescer e ainda economizar recursos”, aponta Joelson.
Segundo ele, medidas como o reuso de água, a busca por fontes renováveis de energia e a redução da geração de resíduos podem produzir resultados para empresas de diferentes portes. Além da economia de recursos, certificações e outras formas de comprovação das práticas adotadas podem ajudar a empresa a se posicionar diante de clientes e parceiros que também passaram a considerar critérios ambientais, sociais e de governança em suas decisões.

É nesse contexto que entra o conceito de ESG, sigla em inglês para Environmental, Social and Governance (ou ambiental, social e governança). Na prática, o conceito amplia a discussão sobre sustentabilidade para aspectos que envolvem toda a gestão do negócio, desde o uso responsável de recursos naturais até planejamento, indicadores e governança.
Para os pequenos negócios, o Sebrae/PR disponibilizou durante a Feira, inclusive, um autodiagnóstico ESG gratuito, que permitiu aos participantes avaliarem o estágio atual da empresa, identificar oportunidades de melhoria e elaborar um plano de ação.
Na prática, food trucks transformam orientação em rotina
Entre os negócios diretamente envolvidos estão os 10 food trucks presentes no espaço de alimentação, que receberam orientações antes do início da Feira e passaram a integrar uma rotina de separação de resíduos durante o evento.

Um dos participantes é Thiago Giovanini, da T&R Eventos e Espetinhos. Para ele, a separação já fazia parte da rotina do negócio, mas a Feira acrescentou a compostagem ao processo.
“Nós nos adaptamos às informações da própria Feira e colocamos em prática o que a gente já vem fazendo diariamente, que é separar o lixo corretamente no lugar certo: compostagem e reciclagem”, conta Thiago.

Durante o evento, os estabelecimentos recebem recipientes dedicados ao armazenamento de resíduos orgânicos, como restos de alimentos. A separação é complementada por uma equipe que orienta os visitantes no momento do descarte.
Para ele, um dos principais desafios está justamente depois do descarte. Separar corretamente os materiais dentro do estabelecimento só produz o resultado esperado se a coleta e a destinação também forem feitas de maneira adequada.
A experiência também ultrapassa os limites da Feira. Segundo Thiago, a prática de separar os resíduos passou a ser aplicada pelo grupo em outros eventos dos quais participa. O empresário afirma, ainda, que a preocupação com a sustentabilidade foi incorporada à sua rotina e chegou à família.
“Já passei até para minha filha, que é novinha, para ir sendo uma rotina como separar corretamente o lixo”, relata.
No começo, pequenas mudanças já fazem diferença
Se para alguns empreendedores as práticas sustentáveis já fazem parte da rotina, para outros a Feira representa uma oportunidade de contato mais estruturado com o tema. É o caso de Eliu Andrade dos Santos, do food truck Bubble Waffle. Pela primeira vez na Feira do Empreendedor, ele participou de uma reunião de orientação realizada antes do evento para entender como funcionaria a separação dos resíduos.
A capacitação trouxe mudanças imediatas para a operação. Um dos principais aprendizados foi descobrir que nem todas as embalagens podem ser destinadas à reciclagem, especialmente quando estão sujas ou são compostas por diferentes materiais.
“No meu caso, uso muita embalagem metalizada. Com as orientações, a gente já consegue ter uma noção dos produtos que pode reciclar ou não”, explica Eliu.
A partir da orientação, o empreendedor acrescentou mais um recipiente para separar corretamente os materiais. Eliu também passou a orientar clientes que ficam em dúvida diante das diferentes lixeiras disponíveis no espaço.
A participação no programa de sustentabilidade da Feira também trouxe outro incentivo: os food trucks passam por um checklist de práticas sustentáveis e podem receber o selo Conexão Sustentável. Para ele, esse tipo de reconhecimento pode contribuir para diferenciar o negócio.
“Tudo o que tiver algo a mais para agregar é melhor para o seu empreendimento. Você evolui mais”, afirma.
A percepção está alinhada à proposta do Sebrae/PR de transformar sustentabilidade em uma ferramenta de competitividade. A ideia é que práticas ambientais deixem de ser vistas apenas como uma obrigação ou como uma ação de responsabilidade social e passem a integrar a estratégia dos pequenos negócios.
“Essa é a principal mensagem que a gente quer deixar: a sustentabilidade não é custo. Ela é uma oportunidade de se posicionar de forma estratégica e alcanças novos mercados”, resume Joelson Carvalho, consultor do Sebrae/PR.

Ações para reduzir emissões e resíduos
Antes mesmo de ensinar o empreendedor a tornar seu negócio mais sustentável, a Feira do Empreendedor 2026 decidiu colocar a própria sustentabilidade em prática. Durante o evento, ações que vão da coleta seletiva à compostagem de resíduos orgânicos fazem parte de uma estratégia para reduzir o impacto ambiental de uma estrutura que reúne milhares de pessoas.
Além de buscar novamente a Certificação Lixo Zero, a Feira busca ser um evento Carbono Zero, com o levantamento das emissões de gases de efeito estufa, ações de mitigação e compensação dos impactos.
O resultado da edição anterior ajuda a dimensionar o desafio enfrentado. Em 2025, o evento registrou 3.008,5 quilos de resíduos, considerando recicláveis, orgânicos e resíduos sanitários, de acordo com levantamento feito. Os dados serão utilizados como referência para a edição de 2026. O levantamento oficial deste ano, que inclui a pesagem dos resíduos e a contabilização das emissões, será concluído nas próximas semanas.
Para alcançar a Certificação Lixo Zero, a organização do evento trabalha para desviar o maior volume possível de resíduos dos aterros sanitários. Para isso, conta com uma central de resíduos responsável pela triagem, pesagem e encaminhamento dos materiais para os destinos adequados.
Os resíduos recicláveis seguem para empresas especializadas, onde são separados e podem retornar à cadeia produtiva como matéria-prima. Já os resíduos orgânicos são encaminhados para compostagem, transformando o que seria descartado em aterro em composto que pode ser utilizado novamente.

A estratégia começa antes mesmo da abertura dos portões. A equipe responsável pela sustentabilidade realiza orientações e treinamentos com expositores e food trucks, que recebem instruções sobre separação e descarte correto dos resíduos.
“Eles são parceiros fundamentais do evento. A gente faz alinhamentos e treinamentos antes da realização, até para eles entenderem e serem parceiros importantes. São eles que estão na operação e nos ajudam colocando o resíduo no lugar correto. E a gestão de resíduos em um evento como esse é um dos grandes vilões. Esse é um trabalho que a gente leva muito a sério, porque além de fazer o evento queremos demonstrar que eventos de grande proporção podem ter impactos ambientais positivos”, explica Joelson.
Além da gestão dos resíduos, a organização considera outras fontes de impacto ambiental, como o consumo de energia e o deslocamento de visitantes, trabalhadores e palestrantes. A partir do levantamento das emissões são planejadas ações de mitigação e compensação.
A proposta, segundo o consultor, é utilizar a própria Feira como demonstração de que grandes eventos podem incorporar práticas sustentáveis e, ao mesmo tempo, gerar aprendizado para os empreendedores que participam deles.
Sustentabilidade também inspira o jornalismo
O tema também esteve em destaque na etapa estadual do Prêmio Sebrae de Jornalismo, que teve como vencedor da 13ª edição, na categoria especial Jornalismo Universitário, o projeto: “A força é delas e é verde: A rede feminina que redesenha o empreendedorismo sustentável no Paraná”. Produzido por Ana Clara Osinski, Alana Morzelli, Alice Lima, Giuliano Carbonari e Isadora Kovalczuk, com orientação de Gabriel Alexandre Bozza, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O trabalho mostra como mulheres da Grande Curitiba utilizam o empreendedorismo sustentável, o reuso e o apoio mútuo para gerar autonomia, dignidade e impacto ambiental. A reportagem, publicada pelo Jornal Comunicação, também evidencia como iniciativas que unem negócios, inovação, responsabilidade ambiental e transformação social vêm ganhando espaço no Paraná.
