
Uma nova Indicação Geográfica brasileira pode vir do litoral do Paraná. A cambira prato típico de Pontal do Paraná teve pedido de reconhecimento como Indicação de Procedência (IP) depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), devido à sua fama, tradição e ligação com a cultura local.
Segundo o caderno de especificações, publicado junto ao pedido protocolado em 14 de fevereiro no INPI, os primeiros registros da iguaria remontam a mais de 300 anos. O prato é preparado com peixe defumado, pirão (farinha de mandioca), banana e arroz com molho de tomate.
A consultora do Sebrae/PR Aline Geani Barbosa explica que o trabalho teve início em 2023, a partir de um diagnóstico realizado pela instituição. O estudo apontou o potencial da cambira e contou com o apoio da prefeitura do município.
“Esse pedido é uma oportunidade de demonstrar o valor histórico e o papel de quem empreende no litoral paranaense, impulsionando a economia local por meio da gastronomia, do turismo e da cultura. Uma possível IG ajuda a preservar a tradição e valorizar a cambira como patrimônio do litoral”, destacou.
A Associação dos Produtores de Cambira de Pontal do Paraná (Aprocampp) foi responsável pelo depósito do pedido, como lembra a presidente Conceição Vieira Ramos Constante.
“Durante esse processo, trabalhamos na consolidação de uma cultura dentro da comunidade, que favorece a todos. É uma forma de evidenciar o potencial que temos na cidade. Toda essa mobilização e a criação da associação nasceram da união de produtores locais, que compartilham o orgulho de manter viva a tradição da cambira, bem como do apoio das instituições. Acreditamos que uma futura conquista da IG fortalece a produção artesanal, valoriza nosso território e reconhece o prato como patrimônio gastronômico”, celebrou.

Moradora da comunidade de Guaraguaçu, Conceição relembra a infância, quando acompanhava o pai desde a pesca da tainha até o processo de defumação, armazenamento e consumo do peixe em família. Desde 2007, ela mantém um restaurante na cidade, onde atende turistas sob reserva.
“O peixe costumava ser o nosso sustento, e lembro de acompanhar meu pai desde a minha infância. Nós fazíamos todo esse processo e armazenávamos em balaios de cipó. Era o nosso alimento durante todo o ano e, acompanhado da banana doce, era preparado de diferentes maneiras: com feijão, moqueca, por exemplo. Ele expressa a cultura, os saberes e os sabores do nosso litoral. Atuamos juntos para fortalecer a produção artesanal, valorizar nosso território e buscar o reconhecimento da cambira como patrimônio gastronômico”, ressaltou Conceição.
Atualmente, a Aprocampp conta com 14 integrantes, sendo cinco restaurantes envolvidos na busca pela IG. O processo começou com um diagnóstico para mapear o potencial do prato e sensibilizar pescadores e empresários, além de apoiar a criação da associação e a elaboração do caderno de especificações técnicas.
Hoje, Pontal do Paraná possui o título de Capital Estadual da Cambira. Além disso, a prefeitura municipal está atuando durante todo o trabalho de busca pela IG, como destacou o prefeito de Pontal do Paraná, Rudisney Gimenes Filho.
“A cambira representa a essência da nossa cultura caiçara, o saber tradicional das famílias de pescadores, e a relação profunda que temos com o mar e a tainha. É com muito orgulho que hoje Pontal do Paraná carrega esse título, mas queremos ir além. Estamos trabalhando para obter o selo de IG, que vai garantir ainda mais visibilidade e valorização para esse produto único, ligado diretamente ao nosso território, ao nosso modo de vida e às nossas raízes. Esse selo vai significar geração de renda, valorização do turismo cultural e gastronômico, e mais oportunidade para quem vive da pesca artesanal e da produção tradicional”, comentou.

Promoção da cultura e tradição caiçara
O prato é típico em diversas comunidades caiçaras do litoral paranaense. No entanto, Pontal do Paraná destacou-se ao valorizar essa tradição, elevando o prato a um novo patamar, com evidência para a riqueza da cultura caiçara. Os registros históricos mostram que a atividade foi, por muito tempo, a principal fonte de renda das comunidades de pescadores, assim como o pescado era a base da alimentação dos caiçaras.
A tradição demonstra que a pesca ocorre entre maio e julho. Depois, realiza-se o processo de limpeza e secagem do peixe, que é salgado e deixado pendurado em varais para defumação. A estrutura dos varais utilizava um cipó, conhecido por sua flor roxa, que deu origem ao nome cambira, associado ao peixe seco e defumado.

O consumo entre caiçaras também se popularizou, com o peixe sendo usado no preparo de ensopados e, em algumas ocasiões, o peixe defumado era aquecido e consumido no café da manhã, nesse processo de conservação que se difundiu no litoral. O método era utilizado pelos pescadores de todo o litoral, especialmente em Matinhos, Paranaguá e Pontal do Paraná.
Indicação Geográfica
Hoje, o Paraná conta com 24 Indicações Geográficas e é o estado brasileiro com o maior número. Apenas em 2026, já foram dois reconhecimentos conquistados, com o Café da Serra de Apucarana e as tortas de Carambeí.
Além disso, o ano de 2025 foi de recorde com a conquista de oito novas IG no Paraná, como as ostras do Cabaraquara; ponkan de Cerro Azul; broas de centeio de Curitiba; cracóvia de Prudentópolis; carne de onça de Curitiba; café de Mandaguari; urucum de Paranacity e queijo colonial do Sudoeste do Paraná.
Também possuem a IG o mel de Ortigueira; queijos coloniais de Witmarsum; cachaça e aguardente de Morretes; melado de Capanema; vinhos de Bituruna; mel do Oeste do Paraná; barreado do Litoral do Paraná; bala de banana de Antonina; erva-mate São Matheus – no Sul do Estado; camomila de Mandirituba; uvas finas de Marialva; cafés especiais do Norte Pioneiro; morango do Norte Pioneiro e a goiaba de Carlópolis.
Além delas, há ainda o mel de melato da bracatinga do Planalto Sul do Brasil, Indicação Geográfica concedida a Santa Catarina que envolve municípios do Paraná e do Rio Grande do Sul.
Junto da cambira, o Estado conta com oito produtos depositados e em análise no INPI. Os outros sete são: acerola de Pérola; caprinos e ovinos da Cantuquiriguaçu; ginseng de Querência do Norte; pão no bafo de Palmeira; cervejas artesanais de Guarapuava; mel de Capanema e couro de peixe de Pontal do Paraná.
