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Programa fortalece viticultura de Colombo e resgata parreiras centenárias

Em seu terceiro ano, iniciativa conta com 18 produtores atendidos, inovação técnica, valorização cultural e cria bases para futura Indicação Geográfica
Por Jorge Camargo
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O cultivo de uvas é um pilar econômico de Colombo, município localizado na Região Metropolitana de Curitiba. A produção histórica ganhou novo fôlego com o Programa Resgate do Patrimônio Vitícola, iniciativa promovida pela Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento, em parceria com o Sebrae/PR. Em seu terceiro ano, o trabalho alia diagnóstico técnico, capacitação, manejo sustentável e valorização de parreiras centenárias para transformar herança cultural em estratégia de desenvolvimento econômico.

A proposta que envolve 18 produtores, vai além da assistência técnica: estrutura a cadeia produtiva, qualifica a gestão e posiciona a viticultura como vetor de geração de renda, turismo e fortalecimento territorial.

Programa envolve produtores que têm acesso a consultorias e formações técnicas. Fotos: Divulgação / Acervo pessoal.

Segundo o secretário municipal de Agricultura e Abastecimento, Jerônimo Strapasson, é uma política pública estratégica por conectar identidade histórica, agricultura familiar e desenvolvimento sustentável. Ele destaca que a viticultura faz parte da formação cultural do município, ligada à colonização italiana, e que o projeto transforma esse patrimônio em vetor de renda e fortalecimento produtivo.

“O programa permite que a tradição deixe de ser apenas um legado cultural e se consolide como atividade econômica estruturada”, afirmou. Ele acrescentou que a parceria com o Sebrae trouxe visão de mercado, capacitação em gestão e profissionalização dos produtores, integrando tradição e empreendedorismo.

Para a consultora do Sebrae/PR, Aline Geani Barbosa dos Santos, é um exemplo de como a tradição e a inovação podem caminhar juntas. Ela destaca que o papel da instituição foi estruturar a cadeia produtiva, oferecer capacitação em gestão e mercado e apoiar estratégias de diferenciação territorial.

“Quando unimos conhecimento técnico, empreendedorismo e identidade cultural, fortalecemos não apenas a produção, mas todo o território”, afirmou Aline.

O Sebrae/PR também atuou na estruturação da visão de longo prazo do programa, apoiando a construção de estratégias voltadas à diferenciação de mercado, fortalecimento da marca territorial e organização da cadeia produtiva. Além das consultorias individuais nas propriedades, foram promovidas capacitações em gestão, planejamento, formação de preço, posicionamento e acesso a mercados, estimulando os viticultores a enxergarem a atividade como negócio estruturado e competitivo.

Segundo Aline, outro eixo relevante é o incentivo à inovação com base na identidade local. Ela explica que, ao integrar produtores, poder público e instituições de pesquisa, favorece a transformação do resgate histórico das parreiras centenárias em um ativo econômico, com potencial para futuras estratégias de Indicação Geográfica e para a consolidação do enoturismo.

Diagnóstico técnico

A engenheira agrônoma – doutora em Produção Vegetal e responsável técnica pelo programa, Francelize Chiarotti, explica que o trabalho começou com um diagnóstico detalhado em 18 propriedades, por meio de visitas in loco e entrevistas com famílias tradicionais e produtores que desejavam retomar a atividade.

Foram promovidas capacitações em manejo, gestão, planejamento, formação de preço, posicionamento e acesso a mercados.

Foram avaliados critérios como idade das parreiras, cultivos, sistemas de manejo, sanidade, produtividade e relação histórica das famílias com a viticultura.

“Nosso papel foi compreender a realidade atual da viticultura de Colombo, integrar conhecimento científico à prática local e valorizar as parreiras mais antigas, mantidas por gerações”, destacou Francelize.

Entre os principais achados estão parreirais com até 130 anos, com elevada rusticidade e adaptação ao solo e clima da região. Para a engenheira, essas plantas representam patrimônio genético e cultural de alto valor.

Resultados expressivos

Nos três anos de execução, são apontados avanços na assistência técnica, recuperação de parreirais e adoção de boas práticas de manejo da uva. O município, segundo a Prefeitura, contabiliza dezenas de produtores ativos e centenas de toneladas de uva movimentadas anualmente, com crescimento na produção de derivados como vinhos artesanais, sucos e produtos coloniais.

Programa apresentou resultados expressivos: atualmente, a área cultivada é de 32,5 hectares.

Em 2025, o Programa Resgate do Patrimônio Vitícola apresentou avanços concretos na estrutura produtiva do município. A área cultivada saltou para 32,5 hectares, um acréscimo de 4,5 hectares em relação ao início do projeto. Também houve crescimento expressivo na produção orgânica, que passou de uma para três propriedades, ampliando a área cultivada nesse sistema de 1 hectare para 3 hectares. Além disso, três propriedades retomaram o cultivo de uva, reforçando o movimento de reativação da atividade no território.

Sucessão familiar

Outro dado relevante é o fortalecimento da sucessão familiar. Três jovens passaram a atuar diretamente nas áreas orgânicas e outros quatro ingressaram nas áreas convencionais, indicando renovação geracional em um setor que, historicamente, enfrenta desafios de continuidade. No campo técnico, os manejos foram aprimorados, com adoção de práticas como cobertura de solo, poda adequada, desfolha, desponte e implantação de calendário fitossanitário.

Controle de pragas

O controle da praga pérola-da-terra foi implementado em 100% das áreas e todas as 18 propriedades realizaram análise de solo, qualificando o planejamento produtivo.

“Embora a produtividade ainda não possa ser mensurada de forma definitiva, pois depende de variáveis climáticas e fitossanitárias, as áreas orgânicas surpreenderam ao registrar produção simbólica com apenas um ano e quatro meses de implantação, quando o ciclo normal indicaria início produtivo apenas entre dois anos e meio e três anos”, explica a engenheira agrônoma Francelize Chiarotti.

Ela acrescenta que, entre 2024 e 2025, novas ações ampliaram o caráter inovador da iniciativa. Destacam-se a caracterização da uva Terci, testes com ácido giberélico, análises sensoriais de vinhos coloniais e a multiplicação de mudas históricas provenientes das parreiras centenárias.

“O conjunto dos resultados demonstra uma evolução estruturada e contínua entre 2023 e 2025, marcada pela ampliação das áreas produtivas, fortalecimento da produção orgânica, qualificação técnica e valorização histórica da viticultura de Colombo, consolidando bases sólidas para um desenvolvimento sustentável e de longo prazo”, enfatiza.

Uva de Colombo

Um dos desdobramentos mais emblemáticos do projeto é a investigação da chamada “uva de Colombo”. Embora análises ampelográficas (estudo técnico-científico focado na identificação, classificação e descrição das variedades de videiras) realizadas pela Embrapa Uva e Vinho tenham identificado as plantas como da cultivar Bordô, produtores sempre afirmaram que havia diferenças.

A partir dessa percepção, foram iniciados estudos fenológicos e análises físico-químicas que já apontam distinções relevantes.

“Estamos começando a comprovar que há diferenças. Isso reforça a singularidade dessa produção e a possibilidade de consolidar uma identidade própria”, afirmou Francelize.

Paralelamente, o projeto realizou a seleção de uma parreira centenária considerada matriz, com coleta de estacas e encaminhamento ao IDR-Paraná para verificação sanitária, multiplicação e enxertia. Parte das mudas retornará aos produtores ainda este ano, garantindo a preservação e a disseminação desse material genético.

“O estudo dos clones fortalece a identidade produtiva do município, aumenta a resiliência dos vinhedos e abre caminho para estratégias como a Indicação Geográfica”, ressaltou.

Tradição familiar e renovação

Entre os exemplos que simbolizam essa nova fase da viticultura colombense está Eliton Ceccon, que trocou a engenharia civil pelo campo. Formado há seis anos, ele atuava na área de projetos, quando decidiu retornar à propriedade da família. A aproximação com a iniciativa foi decisiva: ao conhecer as possibilidades de manejo orgânico e alternativas para enfrentar desafios como a pérola-da-terra, enxergou viabilidade técnica onde antes havia frustração. A ligação afetiva com a Festa da Uva, frequentada desde a infância ao lado do avô, que participava desde a primeira edição, também pesou na decisão.

“Desde pequeno eu dizia que a gente precisava voltar a plantar uva. Quando surgiu o projeto e vi que era possível produzir no sistema orgânico, decidi assumir essa responsabilidade”, afirma. Hoje, no segundo ano do parreiral, já colheu 1,5 tonelada e projeta alcançar cerca de cinco toneladas quando atingir a produção plena.

Eliton comercializa parte da sua produção no Mercado Municipal de Curitiba e na Festa da Uva, enquanto o excedente é destinado à produção de sucos e geleias. Ele acrescenta que o próximo passo é estudar enologia e estruturar uma agroindústria própria para lançar vinhos com identidade local, especialmente quando receber a muda do clone da parreira centenária. “Quero produzir vinho com as uvas de Colombo. Mostrar que sempre tivemos capacidade de produzir aqui”, reforça.

Já a história de Valdirene Batistão, filha do Bruno Raul Batistão, que mantém o vinhedo mais antigo da cidade, confunde-se com a própria formação de Colombo. As parreiras, segundo ela, vieram da Itália nos navios dos bisavós, há cerca de 130 anos.

“Minha nona contava que os galhos atravessaram o oceano e sobreviveram. Muitos imigrantes não resistiram à viagem, mas as videiras chegaram e continuam fortes até hoje”, relata Valdirene. A propriedade, conduzida pelo pai de 82 anos, preserva o cultivo tradicional e produz pouco mais de uma tonelada por safra.

O produtor Bruno Raul Batistão possui parreiras que vieram da Itália há cerca de 130 anos.

A produtora afirma que participar do programa de Resgate do Patrimônio Vitícola trouxe novos conhecimentos de manejo, poda e cuidados fitossanitários, além de ampliar perspectivas de negócio. “A produção aumentou e aprendemos muito. Isso dá ânimo e orgulho para continuar”, diz.

Valdirene também destaca o valor emocional das parreiras para o pai, que enfrentou tratamento contra o câncer e encontrava forças no trabalho diário no vinhedo. Agora, a família prepara um novo parreiral com mudas das centenárias, ampliando a preservação desse patrimônio genético e histórico. “É um orgulho imenso saber que essa história vai continuar e se espalhar pela cidade”, afirma.

Festa da Uva ganha protagonismo local

Neste ano, Colombo realizou a 59ª edição da tradicional Festa da Uva. Com o programa, o fortalecimento da cadeia produtiva tem reflexo direto no evento, que passou a contar com maior participação de produtores locais e valorização do produto genuinamente colombense.

A 59ª edição da Festa da Uva de Colombo fortaleceu a cadeia produtiva com reflexo direto no evento, que passou a contar com maior participação de produtores locais.

De acordo com o secretário Jerônimo, o monitoramento realizado a partir do diagnóstico técnico permitiu mapear a capacidade produtiva do município, ampliando o protagonismo do agricultor local na comercialização durante a festa. “A Festa da Uva deixou de ser apenas um evento cultural e se consolidou também como vitrine de negócios”, afirmou.

Ao integrar produção, ciência, inovação e memória, o Programa Resgate do Patrimônio Vitícola projeta Colombo para além da tradição. O que começou como preservação de parreiras antigas se consolidou como estratégia de desenvolvimento rural, valorização cultural e posicionamento econômico com raízes profundas e olhar voltado para o futuro.

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