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Da pequena propriedade ao reconhecimento internacional: família transforma produção de queijos em referência

Em Chopinzinho, trajetória de casal acompanha a consolidação do sudoeste do Paraná pela produção de queijos artesanais
Por ASN Paraná
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Os produtores rurais Leocledes Gossler e Giovana Karina Gregolon. Família é referência na produção de queijo no sudoeste do Paraná com diversas premiações em concursos. Foto: DoisGV.

“Um dia essa propriedade ainda vai aparecer na televisão.” A frase dita por Leocledes Gossler e a esposa, Giovana Karina Gregolon, em 2009, poderia parecer ousada diante do cenário daquela época. A propriedade, na comunidade de Linha Tesoura, no interior de Chopinzinho, tinha apenas 1,7 alqueire, nenhuma construção e espaço para poucas vacas. Mais de 15 anos depois, o lugar se tornou endereço da Irmão Queijeiro, agroindústria familiar que acumula diversas premiações.

A história começou quando o casal ainda morava em Coronel Vivida, sudoeste do Paraná, e enfrentavam dificuldades para pagar o aluguel. A pequena propriedade cedida pela família de Giovana surgiu como alternativa, embora o alerta do sogro fosse de que a área comportaria, no máximo, duas vacas leiteiras e dificilmente garantiria o sustento da família.

Eles decidiram tentar. Enquanto Leocledes continuava trabalhando na cidade, Giovana passou a ordenhar as vacas e produzir queijo artesanalmente, vendido pelo marido aos colegas. Para complementar a renda, a família também produzia panificados, cultivava morangos e melões e conciliou, durante anos, o campo com os empregos na cidade.

A escolha

A mudança de rumo começou entre 2016 e 2017, com a aproximação de técnicos da então Emater, atual Instituto de Desenvolvimento Rural (IDR-Paraná), que identificaram potencial na produção artesanal da família.

“Em 2019, fizemos um curso de aperfeiçoamento em queijos que trouxe novos conhecimentos sobre qualidade e técnicas de fabricação, ajudando a transformar a atividade em negócio”, conta Giovana.

John, filho mais velho do casal, acompanha de perto a rotina da família e o cuidado por trás de cada queijo produzido. Foto: Arquivo Pessoal.

A agroindústria foi construída entre 2020 e 2021 e, em 2022, recebeu o registro no Serviço de Inspeção Municipal (SIM). Em 2023, conquistou o Susaf e, posteriormente, o Selo Arte, ampliando as possibilidades de comercialização dos produtos para além do município e a oportunidade de vende-los em âmbito nacional.

“Em apenas 1,7 alqueire, uma área considerada pequena demais para sustentar uma família com a atividade leiteira, foi construída uma agroindústria premiada, capaz de agregar valor ao leite, gerar renda e mostrar que conhecimento, persistência e dedicação podem transformar desafios em oportunidades”, destaca Leocledes.

Hoje, a Irmão Queijeiro produz entre 350 e 400 quilos por mês, incluindo queijos Colonial, Coalho, Cremoso, Amanteigado, Colonial Maturado ao Vinho, Colonial com Fermento de Parmesão e variedades temperadas. A comercialização ocorre principalmente de forma direta para moradores e turistas, com clientes de diferentes estados brasileiros.

Família produz aproximadamente 400 quilos de queijo. incluindo queijos Colonial, Coalho, Cremoso, Amanteigado, Colonial Maturado ao Vinho, Colonial com Fermento de Parmesão e variedades temperadas. Foto: Arquivo Pessoal.

Do sudoeste para os concursos

Com a profissionalização vieram também as medalhas. Em 2022, o queijo Amanteigado conquistou prata no 2º Mundial do Queijo do Brasil. Já no ano seguinte, a agroindústria recebeu duas medalhas de prata na ExpoQueijo Brasil, em Araxá (MG), e conquistou seis medalhas no VI Prêmio Queijo Brasil, sendo três delas de ouro, duas de prata e uma de bronze.

“Em 2024, o Amanteigado conquistou a medalha de ouro no 3º Mundial do Queijo do Brasil, foi ouro também na Expo Queijo Brasil, em Araxá (MG), e conquistou quatro medalhas no VII Prêmio Queijo Brasil, celebrando uma de ouro, duas de prata e uma de bronze”, acrescenta Giovana.

No ano passado, em 2025, a queijaria também subiu aos palcos. Foi premiada no Concurso Queijos Paraná e no VIII Prêmio Queijos Brasil, conquistado no total oito medalhas. E, neste ano de 2026, eles foram reconhecidos durante o Prêmio Queijos Expobel 2026 e no IX Prêmio Queijos Brasil, celebrando oito medalhas nos dois concursos.

Leocledes Gossler ao lado do filho mais novo, Johnny, durante a 9ª edição do Prêmio Queijo Brasil, realizada em Blumenau (SC). Foto: Arquivo Pessoal.

A trajetória acompanha um movimento regional. Somente na edição de 2026 do Prêmio Queijo Brasil, agroindústrias do sudoeste conquistaram 34 medalhas, evidenciando a evolução da produção local.

Transformação que envolve toda uma região

Nas últimas décadas, a produção artesanal de queijos no sudoeste passou por um processo de profissionalização. Produtos tradicionalmente elaborados pelas famílias ganharam novos processos, adequação sanitária, identidade, embalagens, estratégias de mercado e maior valor agregado.

Nesse movimento, o Sebrae/PR atua junto aos produtores e instituições regionais, apoiando a profissionalização das agroindústrias, a gestão dos negócios, o posicionamento dos produtos, o acesso a mercados e a valorização da identidade territorial.

Uma das iniciativas que contribuem para esse processo é o Inova Queijo, programa e evento voltado ao fortalecimento das queijarias do Sudoeste do Paraná. A iniciativa promove capacitação, troca de experiências e acesso a conhecimentos que ajudam os produtores a aprimorar processos, produtos e estratégias de comercialização, elevando ainda mais a qualidade dos queijos e ampliando a competitividade da produção regional.

“A trajetória dessa família mostra como a produção artesanal pode se tornar um negócio capaz de gerar renda em uma pequena propriedade. O saber fazer dos produtores é o ponto de partida. O Sebrae/PR contribui com gestão, melhoria de processos e acesso a mercados, para que a qualidade dos queijos também se traduza em resultados para as famílias”, comenta a consultora do Sebrae/PR, Alyne Chicocki.

Inova Queijo realizado este ano, em Dois Vizinhos, reuniu mais de 350 participantes. Foto: Dois GV.

Um dos principais marcos desse processo ocorreu em junho de 2025, quando o Queijo Colonial do Sudoeste do Paraná recebeu do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) o registro de Indicação Geográfica (IG), na modalidade Indicação de Procedência. O reconhecimento abrange 42 municípios e reforça oficialmente a relação entre o produto e o território.

“A IG reconhece a relação do Queijo Colonial com o Sudoeste do Paraná e valoriza uma história construída pelas famílias produtoras. Agora, o trabalho é fortalecer a organização dos produtores, ampliar o uso da IG conforme suas regras e tornar esse reconhecimento conhecido pelo consumidor. Assim, ele pode contribuir para a valorização do produto e abrir novas oportunidades de mercado”, acrescenta Alyne.

Organização para crescer

A organização dos produtores também tem papel importante. A Associação dos Produtores de Queijo Artesanal do Sudoeste do Paraná (Aprosud) reúne atualmente 16 produtores ativos, responsáveis por uma produção estimada em cerca de 20 mil quilos de queijo por mês.

“A associação nasceu justamente com o propósito de unir os produtores e fortalecer toda a cadeia do queijo na nossa região. Por meio do associativismo e de parcerias importantes, como a do Sebrae/PR, conseguimos avançar na capacitação, na regularização das queijarias, na rotulagem e na melhoria dos processos de produção”, destaca a produtora Roseli Capra, presidente da Aprosud.

A presidente da Aprosud, Roseli Capra, destaca a importância do associativismo no desenvolvimento e fortalecimento da cadeia produtiva do queijo na região. Foto: Dois GV.

Dos 16 associados, quatro já produzem queijos que trazem o selo da IG na embalagem. Para utilizar o selo da Indicação Geográfica no Queijo Colonial, a agroindústria deve preservar o modo de fazer tradicional, seguir as boas práticas de fabricação e atender as regras de uso da IG. Para Roseli, os resultados demonstram a força do trabalho em equipe.

“A conquista da Indicação Geográfica também é resultado dessa união coletiva. As medalhas e os reconhecimentos que vêm sendo conquistados coroam esse esforço e mostram o quanto nossos produtores evoluíram e têm potencial para avançar ainda mais”, completa a presidente.

De acordo com Giovana e Leocledes, toda essa transformação pode ser observada nos mesmos 1,7 alqueire que, no início, pareciam pequenos demais para sustentar a família. O leite das primeiras vacas virou queijo, a produção caseira tornou-se uma agroindústria.

“A propriedade ganhou destaque, recebeu visitantes e levou seus produtos a concursos de diferentes partes do Brasil. Mais do que isso, tornou-se parte de uma história construída por famílias que, ao transformar leite em queijo, também ajudam a consolidar a identidade do sudoeste do Paraná”, concluem os produtores rurais.

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  • pecuária leiteira
  • queijo colonial do sudoeste