A produção do mel a partir de abelhas sem ferrão está se transformando em fonte de renda para mais de 100 pequenos produtores do interior do Paraná. Em Prudentópolis, a produção de mel dessas espécies ganhou espaço no mercado. Os motivos são o sabor característico, a propriedade medicinal e o uso na gastronomia.
À frente da iniciativa está o empreendedor e meliponicultor Jairo Corrent que, junto com outros três sócios, apostou na produção. A atividade teve início com a produção e comercialização de enxames. Com o crescimento do número de criadores, surgiu um novo desafio: encontrar mercado para o mel produzido pelos associados.

“Partindo da observação de que muitos produtores tinham a produção de mel e não sabiam como escoá-la, iniciamos a compra desse produto. Foi então que, com o apoio dos meus sócios, e a partir da orientação do Sebrae, nasceu a marca Terra das Abelhas”, lembra Jairo.
A matéria-prima é adquirida de mais de 100 pequenos produtores, sendo cerca de 90% deles de Prudentópolis. Juntos, eles somam aproximadamente três mil quilos de mel por ano, com compra garantida da produção.
Atualmente, são sete tipos de mel de abelhas sem ferrão envasados sob a marca própria: Jataí, Mandaçaia, Bugia (Uruçu Amarela), Manduri, Guaraipo, Tubuna e Borá. Boa parte, é vendida a uma rede de supermercados do Paraná. Apesar da evolução, Jairo, ainda trabalha para disseminar o produto e expandir a venda.
O motivo é a baixa produção anual e o alto valor agregado. De acordo com ele, cada enxame de abelha sem ferrão, dependendo da espécie, produz entre 300 gramas até 1,5 quilos de mel por ano, enquanto uma abelha comum chega a produzir 50 quilos. Além da baixa produtividade, o mel exige, ainda, um processo adicional de desumidificação antes do envase, o que reduz em 20% o volume final disponível para venda.
“Estamos organizando essa questão e, a cada ano, a produção está aumentando. É um produto diferenciado, mas muitas pessoas ainda não percebem esse valor agregado. Existe um mercado a ser explorado e estamos trabalhando para ampliar esse conhecimento junto aos consumidores”, detalha.
Trabalho, agora, é voltado para expandir a venda a partir do e-commerce e, também, para o lançamento do primeiro hidromel produzido a partir do mel da abelha Apis, bebida considerada uma das mais antigas do mundo.

O consultor do Sebrae/PR, André Rodrigo Paganotto, destaca que o mel de Prudentópolis possui grande relevância histórica, cultural e econômica para o município, já que centenas de famílias têm, na apicultura, uma importante fonte de renda e desenvolvimento sustentável.
Ele argumenta que a apicultura vem se consolidando como uma atividade estratégica no Brasil, com crescimento impulsionado pelo aumento do consumo de produtos naturais e pela valorização de alimentos com origem e qualidade diferenciadas.
“Nesse cenário, o mel de Prudentópolis se insere em um segmento de maior valor agregado, no qual a remuneração do produtor não depende apenas do volume produzido, mas principalmente da capacidade de diferenciação do produto. Aspectos como pureza, rastreabilidade, manejo sustentável e identidade regional permitem que o mel alcance mercados mais exigentes e preços superiores aos praticados por produtos de larga escala, muitas vezes com diferença significativa de valorização por unidade comercializada”, avalia o consultor do Sebrae/PR.
André destaca, ainda, que a atividade apícola impacta diretamente a economia local ao movimentar toda a cadeia produtiva, que inclui fornecedores de equipamentos, insumos, serviços técnicos, beneficiamento e comercialização. Essa movimentação, ainda de acordo com ele, gera efeito multiplicador de renda, fortalecendo pequenos produtores e estimulando a permanência das famílias no meio rural, com maior estabilidade econômica e diversificação de fontes de receita.
“E a principal diferença econômica do mel de Prudentópolis está na mudança de lógica produtiva, deixando de ser uma commodity, baseada em volume, e passando a ser um produto de valor agregado, capaz de gerar margens superiores, maior estabilidade de renda e acesso a mercados mais qualificados, transformando a apicultura em uma atividade de alta eficiência econômica para o território”, qualifica.
Sabor diferenciado
O meliponicultor Jairo Corrent faz questão de salientar os diferenciais do mel produzido a partir das abelhas sem ferrão. Nesse sentido, ele define: “é um mel considerado raro, de sabor exótico e complexo, com características que variam conforme a espécie produtora. Algumas variedades são mais adocicadas, enquanto outras apresentam notas florais e frutadas. E o melhor: não deixa sabor residual como o mel produzido tradicionalmente, o que garante diferencial na elaboração de receitas culinárias”
Outro diferencial apontado pelos produtores é o baixíssimo teor de sacarose, característica que também contribui para o uso tradicional do produto na medicina popular. As peculiaridades vêm despertando o interesse de chefs e restaurantes de alta gastronomia, especialmente nos grandes centros.
Para Jairo, a qualidade do mel está diretamente ligada às características ambientais da região, o que inclui as extensas áreas de mata nativa, associadas à presença de rios e cachoeiras, que oferecem uma diversidade floral, que influencia o sabor e a identidade do produto.
“O que torna nosso mel diferente é justamente a preservação ambiental. As abelhas dependem da floresta e a floresta depende delas. É uma relação que beneficia tanto a natureza quanto as famílias que vivem dessa atividade”, destaca Jairo.

Sustentabilidade
A atividade também contribui para a conservação da biodiversidade e para a preservação de espécies nativas.
“Espécies como a Mandaçaia, Manduri e Bugia, que por décadas figuraram em listas de espécies ameaçadas devido à perda de habitat e ao uso de agrotóxicos, encontram hoje nos meliponários um refúgio e uma oportunidade de retomada”, comenta.
O trabalho do meliponicultor é um seguro de vida para essas espécies.
“Através da multiplicação manejada de enxames, aumentamos a densidade populacional dessas abelhas na região. Na prática, muitas dessas colônias acabam realizando a enxameação natural para as matas vizinhas, promovendo um repovoamento efetivo onde antes essas abelhas haviam desaparecido”, explica Jairo.
Capital do mel
O consultor do Sebrae/PR, André Rodrigo Paganotto explica que a instituição vem trabalhando na articulação e fortalecimento da cadeia produtiva, promovendo ações de capacitação, consultorias técnicas, apoio à governança e na organização dos produtores.
A tradição na apicultura já permitiu o reconhecimento de Prudentópolis como Capital do Mel, título que ostenta desde a década de 80.
“O trabalho realizado com esses apicultores busca ampliar a competitividade, agregar valor ao produto regional e consolidar o mel de Prudentópolis como referência nacional em qualidade e identidade territorial”, acrescenta.
